Enquanto o Sul treme de frio, Norte e Nordeste fervem
O Brasil está vivendo uma esquizofrenia climática. Enquanto a primeira grande frente fria do inverno derruba os termômetros no Sul — com geada, vento gelado e chance de neve em São Joaquim —, o Norte, o Nordeste e o Centro-Oeste experimentam o oposto: calor de 32°C, 33°C, 34°C. Em pleno junho. O mês em que, teoricamente, as temperaturas deveriam estar mais amenas.
Segundo o Climatempo, a combinação de uma massa de ar seco estacionada sobre o centro do país, o início do fenômeno El Niño e a radiação solar do solstício de inverno — que, no Hemisfério Sul, significa dias mais curtos mas com sol ainda muito forte nas regiões equatoriais — está criando esse cenário de calor fora de época. Cuiabá pode bater 33°C. Palmas, 34°C. Teresina, 33°C. Em junho. Isso não é normal.
Neste artigo, vou mostrar quais cidades estão registrando as maiores temperaturas, por que isso está acontecendo em pleno inverno, os impactos para a população e para a agricultura, e como se proteger desse calor — porque, sim, o calor de inverno também mata.
Cidades que estão registrando temperaturas acima da média
Enquanto o Sul do Brasil veste casacos, estas cidades estão enfrentando um calor digno de verão:
- Cuiabá (MT): 33°C, com sensação térmica de 36°C. A capital mato-grossense é uma das cidades mais quentes do Brasil e, mesmo em junho, não dá trégua. A umidade relativa do ar fica entre 30% e 40%, tornando o calor mais suportável — mas ainda assim intenso.
- Goiânia (GO): 30°C com baixa umidade do ar — abaixo de 30%. O calor seco do Cerrado goiano é característico do inverno, mas as temperaturas estão 2°C a 3°C acima da média histórica para junho.
- Palmas (TO): 34°C. A capital tocantinense é uma das mais quentes do Brasil durante o inverno. A estação seca, que vai de maio a setembro, mantém o céu limpo e o sol forte o dia todo.
- Teresina (PI): 33°C. A capital piauiense, localizada no meio do Nordeste, não conhece inverno de verdade. As temperaturas permanecem altas o ano todo, mas junho costuma ser um pouco mais ameno. Não este ano.
- Pirapora (MG): 32°C. No norte de Minas Gerais, o calor do semiárido não respeita calendário.
- Petrolina (PE): 32°C. No sertão pernambucano, o inverno é a estação das chuvas — mas elas estão escassas este ano, e o calor predomina.
Por que faz tanto calor no inverno do Norte e Nordeste?
1. El Niño iniciando
O principal culpado tem nome: El Niño. O aquecimento do Oceano Pacífico equatorial altera a circulação atmosférica global. No Brasil, um dos efeitos é o bloqueio das frentes frias — elas não conseguem avançar para o Norte e Nordeste. O resultado é que essas regiões ficam sob influência de ar quente e seco por semanas a fio.
2. Radiação do solstício de inverno
Em junho, o Hemisfério Sul está inclinado para longe do sol — é o solstício de inverno. Mas as regiões próximas ao Equador, como o Norte e o Nordeste do Brasil, recebem radiação solar intensa o ano todo. Com o céu limpo da estação seca, essa radiação aquece o solo sem obstáculos.
3. Ar seco e amplitude térmica
O ar seco do inverno amplifica a amplitude térmica. De dia, o sol forte eleva as temperaturas. À noite, sem nuvens para reter o calor, o solo esfria rapidamente. Por isso, cidades como Brasília podem ter 28°C à tarde e 10°C de madrugada no mesmo dia. É o chamado "inverno de amplitude" — calor de dia, frio de noite.
4. Bloqueio atmosférico
Uma área de alta pressão atmosférica estacionada sobre o Centro-Oeste e Sudeste funciona como uma barreira. Ela impede que as frentes frias do Sul avancem para o Norte e Nordeste. É como se existisse uma parede invisível no meio do Brasil — de um lado, frio; do outro, calor.
Impactos para a população
Queimadas no Mato Grosso e Tocantins
O calor combinado com a baixa umidade cria condições ideais para queimadas. O Mato Grosso e o Tocantins são os estados mais vulneráveis. Em junho, o fogo começa a aparecer nas bordas do Cerrado e da Amazônia, muitas vezes iniciado por ação humana para limpeza de pastagens — mas que, com o tempo seco, sai de controle.
Umidade do ar abaixo de 30%
Quando a umidade relativa do ar cai abaixo de 30%, a Organização Mundial da Saúde recomenda atenção. Abaixo de 20%, é estado de alerta. O ar seco irrita as vias respiratórias, resseca a pele e os olhos, e aumenta o risco de infecções. Crianças e idosos são os mais afetados.
Incêndios no Cerrado e Amazônia
O Cerrado e a Amazônia entram em sua temporada de queimadas a partir de junho. Com o calor acima da média, a vegetação seca mais rápido e fica mais inflamável. Os incêndios destroem ecossistemas, liberam gases de efeito estufa e poluem o ar de cidades a centenas de quilômetros de distância.
Estresse térmico
O corpo humano funciona melhor entre 20°C e 25°C. Acima de 30°C, especialmente em ambientes sem ventilação, o organismo precisa trabalhar mais para se resfriar. O estresse térmico pode causar fadiga, dor de cabeça, tontura e, em casos extremos, insolação — uma emergência médica que pode ser fatal.
Comparação: junho nos últimos 5 anos
Confira como as temperaturas máximas de junho evoluíram nas principais capitais afetadas:
| Capital | Jun 2022 | Jun 2023 | Jun 2024 | Jun 2025 | Jun 2026* |
|---|---|---|---|---|---|
| Cuiabá (MT) | 31°C | 30°C | 32°C | 31°C | 33°C |
| Palmas (TO) | 32°C | 31°C | 33°C | 32°C | 34°C |
| Teresina (PI) | 32°C | 31°C | 32°C | 31°C | 33°C |
| Goiânia (GO) | 28°C | 29°C | 29°C | 28°C | 30°C |
* Projeção com base nos primeiros dias de junho de 2026. Fonte: INMET/Climatempo.
Previsão para o resto de junho
A tendência para o restante de junho é clara: temperaturas acima da média no Norte, Nordeste e Centro-Oeste. As chuvas serão escassas até julho — o que é normal para a estação seca, mas que se torna mais crítico com o calor extra. O CPTEC/INPE não prevê a chegada de nenhuma frente fria capaz de aliviar o calor nessas regiões.
Para Cuiabá, Palmas e Teresina, as máximas devem continuar na casa dos 33°C a 35°C. Para Goiânia, Brasília e Campo Grande, dias quentes e noites frias — a amplitude térmica será a marca registrada do inverno de 2026 no Centro-Oeste.
Como se proteger do calor extremo
O calor de inverno pode ser tão perigoso quanto o de verão. A diferença é que ninguém espera 33°C em junho — e a surpresa pode levar a descuidos. Aqui vão as recomendações:
- Beba pelo menos 2 litros de água por dia. No calor seco, a desidratação acontece mais rápido do que você imagina. Não espere a sede chegar.
- Evite exercícios físicos entre 11h e 16h. É o período de maior radiação solar e temperaturas mais altas.
- Use protetor solar mesmo no inverno. O sol de junho no Norte e Nordeste queima tanto quanto o de janeiro.
- Umidifique o ambiente. Bacias com água, toalhas molhadas ou umidificadores ajudam a combater o ar seco.
- Redobre a atenção com idosos e crianças. São os grupos mais vulneráveis ao calor e à desidratação.
Impacto nas culturas agrícolas
O calor fora de época também afeta o campo. O café de Minas Gerais, que está em fase de maturação dos grãos, pode sofrer com estresse hídrico se a seca se prolongar. A soja do Mato Grosso e Goiás, plantada em outubro, depende da umidade do solo — que está mais baixa com o calor extra.
A pecuária também sente. O gado de corte no Centro-Oeste perde peso com o estresse térmico, e a produção de leite cai. Produtores precisam garantir sombra e água fresca em abundância — algo nem sempre disponível em pastagens extensivas.
Previsão para julho e agosto: o que esperar
Segundo o INMET, julho e agosto devem manter o padrão de temperaturas acima da média no Centro-Oeste e Nordeste. A possível evolução do El Niño para um Super El Niño no segundo semestre — conforme projeção da NOAA — pode intensificar ainda mais o calor e a seca. Se isso se confirmar, o inverno de 2026 entrará para a história como um dos mais quentes já registrados nessas regiões.
Perguntas Frequentes
Por que o Nordeste é mais quente que o Norte em junho?
Embora o Norte (Amazônia) esteja mais próximo do Equador, o Nordeste tem áreas de clima semiárido — o Sertão — onde a vegetação é escassa e o solo exposto absorve mais calor. A umidade da floresta amazônica funciona como um regulador térmico, mantendo as temperaturas um pouco mais estáveis. No semiárido nordestino, a falta de umidade e vegetação faz o calor ser mais intenso.
Vai chover no Sertão em junho?
Improávável. O Sertão nordestino tem sua estação chuvosa entre fevereiro e maio. Em junho, as chuvas já diminuíram significativamente. Com o El Niño se formando, a tendência é de chuvas ainda mais escassas. Cidades como Petrolina (PE) e Juazeiro (BA) podem passar o mês inteiro sem registrar precipitação significativa.
2026 será o ano mais quente já registrado no Brasil?
Não — pelo menos não até agora. 2024 e 2025 foram anos excepcionalmente quentes, com recordes em várias regiões. 2026 deve ficar entre os três anos mais quentes desde 2010, mas dificilmente superará 2024. No entanto, se o Super El Niño se confirmar no segundo semestre, o cenário pode mudar. Acompanhe nossas atualizações.
Quando o calor diminui no Nordeste?
No Nordeste, o calor começa a dar uma trégua a partir de outubro/novembro, quando as chuvas retornam e a nebulosidade aumenta. Janeiro e fevereiro são meses quentes, mas a maior umidade e as chuvas frequentes tornam o calor menos intenso do que no inverno seco. O pior período é justamente o inverno — de junho a setembro — quando o sol é forte e a umidade é baixa.
Fontes consultadas
Climatempo, INMET (Instituto Nacional de Meteorologia), CPTEC/INPE, NOAA CPC, Organização Mundial da Saúde (recomendações de umidade do ar).
