Café 2026: Safra Recorde no Brasil Mesmo com El Niño

A CONAB projeta 66,8 milhões de sacas em 2026, a maior safra da história do café brasileiro. Mas o El Niño no horizonte ameaça reverter a queda nos preços. Entenda o cenário completo.

O Brasil vai colher mais café do que nunca em 2026. Mas tem uma nuvem no horizonte — literalmente.

Se você toma café todo dia (e convenhamos, quem não toma?), prepare-se pra uma notícia que mexe com o seu bolso e com a economia do país. A CONAB — Companhia Nacional de Abastecimento, órgão oficial do governo — acaba de projetar uma safra de 66,8 milhões de sacas de café em 2026. Isso é a maior produção da história do Brasil. Dezoito por cento a mais que o ciclo anterior. O USDA, departamento de agricultura americano, é ainda mais otimista: crava 72 milhões de sacas.

Só que tem um detalhe. Um detalhe grande. A NOAA, agência climática dos Estados Unidos, diz que a probabilidade de um El Niño se formar no segundo semestre de 2026 passa dos 90%. E El Niño mexe com regime de chuvas, temperatura e — você adivinhou — com a produção de café. A pergunta que não quer calar: o que acontece com o preço do cafezinho quando a maior safra da história encontra o fenômeno climático mais temido pelos agricultores?

Neste artigo, vou te contar tudo: os números da supersafra, como o El Niño pode bagunçar o jogo, quanto tá custando o café agora e quais cidades cafeeiras estão no olho do furacão. Bora?

Os números da safra histórica: 66,8 milhões de sacas não é brincadeira

Pra você ter ideia do que 66,8 milhões de sacas significa: é café suficiente pra encher 4 milhões de caminhões. Ou, se preferir, daria pra servir cafezinho pra população inteira da Terra por 40 dias seguidos. A safra atual supera o recorde anterior de 63 milhões de sacas, registrado em 2020, e coloca o Brasil ainda mais distante na liderança mundial — produzimos cerca de 35% de todo o café do planeta.

O grande destaque é Minas Gerais. O estado responde sozinho por 33,4 milhões de sacas, um crescimento de 29,8% em relação ao ciclo passado. Isso é metade de toda a produção nacional saindo de um único estado. O Sul de Minas, especificamente, é o coração que bate mais forte — cidades como Varginha, Três Pontas e Alfenas lideram a produção com lavouras que se estendem até onde a vista alcança.

O Cerrado Mineiro também brilha. Patrocínio e Carmo do Paranaíba, com suas lavouras mecanizadas em terrenos planos, entregam produtividade absurda. E as Matas de Minas — Manhuaçu, Caratinga — completam o trio de regiões que fazem de Minas o maior produtor de café do mundo.

O Espírito Santo, segundo maior produtor nacional, projeta 16 milhões de sacas, com destaque para o conilon (robusta). São Paulo vem com 5,5 milhões, Bahia com 4 milhões, Rondônia com 2,5 milhões. Mas é Minas que carrega o piano.

El Niño 2026: por que os cafeicultores estão de olho no Pacífico

A NOAA — que é tipo o INMET dos Estados Unidos, só que com mais satélites e orçamento de bilhões de dólares — afirma que há mais de 90% de probabilidade de um El Niño se instalar no segundo semestre de 2026. Isso é praticamente uma certeza científica.

O El Niño é o aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico equatorial. Parece distante, mas o efeito cascata chega direto no cafezal. No Brasil, El Niño significa: chuvas acima da média no Sul, seca no Norte e Nordeste, e — aqui tá o ponto crucial — alteração no regime de chuvas do Sudeste durante a primavera e o verão, justamente quando o cafeeiro está na fase crítica de floração e enchimento dos grãos.

O problema é o timing. A supersafra de 2026 já está praticamente no papo — a colheita começa em maio e vai até setembro. Mas o El Niño afeta a safra seguinte, a de 2027. Se as chuvas da primavera falharem na hora da florada, a produção do próximo ciclo despenca. E com os estoques globais de café nos níveis mais baixos em décadas, qualquer sinal de quebra de safra dispara os preços no mercado internacional.

O Climatempo e a MetSul, principais serviços meteorológicos privados do Brasil, estão monitorando as anomalias de temperatura do Pacífico e devem atualizar as projeções ao longo de julho. Mas o recado já está dado: El Niño vem aí.

Preço do café 2026: alívio agora, tensão depois

Em junho de 2026, o café tradicional/extraforte está sendo vendido a R$ 55,34 por quilo no atacado. Isso representa uma queda de 15,51% em relação ao mesmo período de 2025 — quando o preço explodiu por causa da quebra de safra anterior. É um alívio para o consumidor, que vinha pagando valores recordes no supermercado.

A lógica é simples: safra recorde = mais oferta = preço menor. Os estoques estão se recompondo, o mercado respira aliviado. Mas essa calmaria pode durar pouco. Se o El Niño se confirmar com força e afetar a florada de outubro-novembro, o preço pode voltar a disparar já no primeiro trimestre de 2027. O mercado de commodities antecipa crises — os contratos futuros de café já começaram a embutir um “prêmio de risco El Niño”.

Na ponta do consumidor, o café no supermercado deve continuar estável (ou em leve queda) até o final de 2026. Depois disso, depende do Pacífico. A dica? Se você é daqueles que compra café em quantidade, talvez seja uma boa aproveitar os preços atuais.

Cidades cafeeiras em alerta: o mapa do El Niño no parque cafeeiro

Nem todas as regiões cafeeiras são igualmente vulneráveis ao El Niño. O Sul de Minas — Varginha, Três Pontas, Alfenas, Machado — é a área mais exposta porque depende crucialmente das chuvas de primavera para a florada. Se o El Niño atrasar ou reduzir essas chuvas, a florada fica desigual, os frutos não amadurecem juntos e a qualidade despenca.

O Cerrado Mineiro — Patrocínio, Carmo do Paranaíba, Araxá — tem uma vantagem: a irrigação. Cerca de 70% das lavouras do Cerrado são irrigadas, o que dá uma proteção extra contra períodos secos. Mas a irrigação custa caro (energia elétrica + manutenção de pivôs), e se a seca for prolongada, até os reservatórios podem baixar.

As Matas de Minas — Manhuaçu, Caratinga — são uma incógnita. A região tem altitude elevada e microclima próprio, com chuvas mais distribuídas. Historicamente, sofrem menos com El Niño. Mas “menos” não significa “nada”.

Se você quiser acompanhar a previsão do tempo para essas cidades, pode consultar nossa página de previsão para Varginha e previsão para Patrocínio. E fique de olho nos alertas meteorológicos — tempo severo em região cafeeira é notícia que mexe com o preço do seu café.

Café no inverno 2026: geada, o terror silencioso

Além do El Niño, o inverno de 2026 traz outro risco: geada. O café é extremamente sensível a temperaturas abaixo de 0°C. Uma geada forte queima as folhas, mata os brotos e pode comprometer a produção por dois ou até três anos seguidos. A última grande geada no parque cafeeiro foi em julho de 2021 — quem viveu aquilo não esquece.

As áreas de maior risco são as regiões de altitude: Sul de Minas acima de 1.000 metros, Mogiana Paulista e o Planalto de Poços de Caldas. Os cafeicultores usam técnicas de proteção como irrigação noturna (a água libera calor ao congelar), queimadores nos talhões mais baixos (onde o ar frio se acumula) e barreiras de vento com eucalipto.

Tecnologia também ajuda. Sensores de temperatura no meio da lavoura enviam alertas para o celular do produtor quando a temperatura se aproxima de 0°C. Drones com câmeras térmicas mapeiam as áreas mais frias da propriedade. O cafeicultor brasileiro não é mais aquele senhorzinho de chapéu de palha — é um empresário tech.

FAQ — Perguntas Frequentes

Vai faltar café no Brasil em 2026?

Não. Com 66,8 milhões de sacas, o Brasil tem café de sobra para o mercado interno e para exportação. O que pode acontecer é uma alta de preços em 2027 se o El Niño prejudicar a safra seguinte. Mas em 2026, café é o que não vai faltar.

O preço do café vai subir ou cair nos próximos meses?

A tendência de curto prazo é de estabilidade ou leve queda, por causa da supersafra entrando no mercado. O quilo no atacado (R$ 55,34) está 15% mais barato que em 2025. Mas se o El Niño se confirmar com força, os preços podem voltar a subir no primeiro trimestre de 2027. O mercado de futuros já está precificando esse risco.

Dá pra confiar nos números da CONAB?

Sim, sem dúvida. A CONAB é o órgão oficial do governo federal para levantamento de safras. Os números são baseados em visitas de campo, análises de satélite e questionários com produtores. Historicamente, as projeções da CONAB têm margem de erro de menos de 3%. O USDA, embora americano, mantém técnicos no Brasil e cruza dados com a CONAB — o fato de projetarem 72 milhões (vs 66,8 da CONAB) mostra que há otimismo nos dois lados.

Quando o clima vai começar a impactar o café?

Os efeitos mais visíveis do El Niño no parque cafeeiro devem aparecer entre julho e setembro de 2026, quando as anomalias de chuva e temperatura começam a se manifestar. Mas o impacto real na safra 2027 depende do que acontecer na florada, entre outubro e novembro de 2026. Esse é o período que todo cafeicultor vai rezar para São Pedro.


Fontes consultadas

CONAB (4º Levantamento da Safra de Café 2026), USDA (Coffee: World Markets and Trade, June 2026), NOAA (El Niño/Southern Oscillation Diagnostic Discussion), Climatempo, MetSul Meteorologia, MAPA (Ministério da Agricultura e Pecuária).