NOAA confirma: El Niño está voltando e o inverno brasileiro será mais quente
O inverno de 2026 vai ser diferente. Muito diferente. Enquanto você se prepara para tirar os casacos do armário, os meteorologistas da NOAA (Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA) divulgaram no dia 20 de abril de 2026 uma projeção que muda tudo: a probabilidade de formação do El Niño já passa de 60% para o trimestre maio-junho-julho e pode ultrapassar 90% no segundo semestre do ano.
Isso significa que o inverno brasileiro — que começa oficialmente em 21 de junho de 2026, às 11h41 no horário de Brasília — será menos rigoroso, mais úmido em algumas regiões e mais seco em outras. As massas de ar polar que normalmente derrubam as temperaturas no Sul e Sudeste vão encontrar resistência. E o resultado é um inverno que, em muitos lugares, vai mais parecer um outono prolongado.
Neste artigo, vou te explicar o que está acontecendo, como cada região do Brasil será afetada, onde ainda vai fazer frio de verdade, e o que isso significa para a agricultura, para o turismo e para o seu dia a dia. Vamos aos dados.
O que é o El Niño — e por que ele mexe com o inverno do Brasil
O El Niño é um fenômeno climático natural que começa no Oceano Pacífico equatorial, mas cujos efeitos se espalham por todo o planeta. Ele acontece quando as águas superficiais do Pacífico, perto da costa do Peru e do Equador, ficam anormalmente quentes — pelo menos 0,5°C acima da média histórica por três meses consecutivos.
Essa água mais quente aquece o ar acima dela, alterando os padrões de vento e pressão atmosférica em escala global. É como se alguém tivesse ligado um aquecedor gigante no meio do oceano, e a circulação atmosférica redistribuísse esse calor extra para outras partes do mundo.
O oposto do El Niño é a La Niña — quando as águas do Pacífico ficam mais frias que o normal. O Brasil passou os últimos três anos sob influência da La Niña, que favorece invernos mais rigorosos no Sul e chuvas mais intensas no Norte e Nordeste. Agora, a transição para o El Niño inverte esse cenário.
Como o El Niño afeta o inverno brasileiro — região por região
Sul: mais umidade, menos frio intenso
O Sul do Brasil é a região mais impactada pelo El Niño durante o inverno. Com o fenômeno ativo, as frentes frias encontram mais dificuldade para avançar, e as massas de ar polar perdem força. O resultado: temperaturas acima da média, especialmente as mínimas. Curitiba e Porto Alegre terão menos dias com termômetros abaixo de 5°C. Mas a umidade aumenta — junho e julho devem registrar chuvas acima da média, especialmente no Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
Sudeste: inverno dentro ou abaixo da média — mas com surpresas
No Sudeste, o El Niño tem efeito menos direto. As temperaturas tendem a ficar dentro ou ligeiramente abaixo da média, mas as frentes frias que conseguem furar o bloqueio atmosférico chegam com mais umidade. São Paulo e Minas Gerais podem ter um inverno de nevoeiros e garoa, com mínimas que variam bastante de semana para semana. O Rio de Janeiro fica na faixa de transição — sem grandes extremos.
Centro-Oeste: seco e acima da média
O Centro-Oeste já tem invernos naturalmente secos. Com o El Niño, essa secura se intensifica. Brasília e Goiânia podem registrar umidade relativa do ar abaixo de 20% em vários dias de julho e agosto. As temperaturas máximas ficam acima da média — prepare-se para tardes de 28°C a 30°C mesmo em pleno inverno. O risco de queimadas no Cerrado aumenta significativamente.
Nordeste: seca no semiárido
O semiárido nordestino é uma das regiões que mais sofre com o El Niño. As chuvas de inverno, que normalmente aliviam o sertão entre junho e agosto, tendem a ficar abaixo da média. Cidades como Petrolina, Juazeiro e Sobral podem enfrentar estiagem prolongada. Já o litoral, de Salvador a São Luís, mantém temperaturas agradáveis — o inverno nordestino continua sendo uma excelente época para viajar.
Norte: chuvas reduzidas, mas calor persiste
Na Amazônia, o El Niño reduz as chuvas de inverno. Os rios, que já começam a baixar nessa época, podem descer mais rápido. Manaus, Belém e Rio Branco mantêm temperaturas altas — o "inverno amazônico" é mais sobre menos chuva do que sobre menos calor. O risco de queimadas na floresta aumenta, especialmente em agosto e setembro.
O que INMET e EPAGRI projetam para junho de 2026
Segundo o INMET, junho de 2026 será menos frio que maio — uma inversão incomum. Normalmente, maio é um mês de transição e junho já traz as primeiras ondas de frio intenso. Mas com o El Niño se formando, as frentes frias tendem a ser mais oceânicas — ou seja, passam pelo oceano antes de chegar ao continente, perdendo força.
A EPAGRI/CIRAM, centro de meteorologia de Santa Catarina, projeta que o inverno catarinense terá temperatura média acima do normal, especialmente no litoral. As geadas ainda vão acontecer — principalmente no Planalto Serrano — mas em menor frequência e intensidade do que em anos de La Niña.
O CPTEC/INPE reforça que a ausência de bloqueios atmosféricos fortes pode permitir a passagem de algumas frentes frias mais intensas, mas elas serão eventos isolados, não uma tendência contínua. Resumindo: prepare-se para um inverno de altos e baixos, com alguns dias gelados e muitos dias amenos.
Cidades onde ainda fará frio de verdade
Mesmo com o El Niño, algumas cidades brasileiras vão continuar geladas. A altitude e a posição geográfica criam microclimas que resistem às tendências globais. Se você quer sentir frio de verdade neste inverno, anote estes destinos:
- Santa Catarina: São Joaquim e Urupema continuam sendo as cidades mais frias do Brasil, com geadas frequentes e chance de neve em julho.
- Rio Grande do Sul: Bom Jesus e Cambará do Sul mantêm mínimas abaixo de 0°C nas madrugadas de julho.
- Paraná: General Carneiro e Palmas, no sul do estado, registram geadas praticamente todas as manhãs de inverno.
- Sul de Minas: Caldas e Poços de Caldas, com altitude acima de 1.200 metros, têm manhãs geladas e nevoeiros densos.
Essas cidades são a prova de que, mesmo em um ano de El Niño, o Brasil ainda tem seus refúgios de frio. A previsão do tempo para São Joaquim continua sendo a mais consultada do inverno — e com razão.
Risco de neve em 2026: sim, ela ainda pode cair
Apesar do inverno mais quente, a neve não está descartada. O Planalto Sul de Santa Catarina e as áreas de altitude do Rio Grande do Sul — acima de 1.200 metros — têm chance de registrar neve entre julho e agosto. A combinação de umidade remanescente das frentes oceânicas com temperaturas negativas nas madrugadas pode produzir aquele fenômeno que todo brasileiro quer ver.
A diferença é que, em anos de El Niño, a neve tende a ser mais úmida e menos duradoura. Em vez de acumular no chão por dias, ela cai, encanta e derrete em poucas horas. Ainda assim, é neve — e para quem nunca viu, vale cada quilômetro de estrada até a Serra Catarinense.
Impactos na agricultura: o El Niño e o campo brasileiro
O agronegócio brasileiro sente o El Niño de formas diferentes dependendo da cultura e da região. O café de Minas Gerais e São Paulo pode ser beneficiado por um inverno menos rigoroso — menos risco de geadas tardias que queimam as flores e comprometem a safra seguinte. Mas o trigo do Paraná e Rio Grande do Sul depende do frio para seu ciclo — um inverno quente pode reduzir a produtividade.
O grande risco são as geadas tardias, que podem ocorrer em agosto ou até setembro, quando as plantações já estão em fase de floração. Em anos de El Niño, as geadas são menos frequentes, mas quando acontecem fora de época, o estrago é maior porque as plantas não estão preparadas. Produtores de café no Sul de Minas e no Cerrado Mineiro devem ficar atentos às previsões de curto prazo.
Como acompanhar a previsão e se preparar
A melhor forma de se preparar para este inverno atípico é acompanhar a previsão do tempo atualizada. As condições podem mudar rapidamente — uma frente fria que chega de surpresa pode derrubar as temperaturas em 24 horas, mesmo em ano de El Niño.
Acompanhe a previsão para São Joaquim e Bom Jesus se estiver planejando viagem. Fique atento aos alertas meteorológicos para eventos de frio intenso ou geada. E não se esqueça: mesmo com um inverno mais quente, o Sul do Brasil ainda pode surpreender. O casaco pesado pode ficar menos tempo no armário — mas não guarde ele muito longe.
Perguntas Frequentes
Quando começa o inverno de 2026 no Brasil?
O inverno astronômico de 2026 começa oficialmente no dia 21 de junho, às 11h41 no horário de Brasília (UTC-3). O inverno meteorológico — usado por meteorologistas para análises — começa em 1° de junho e vai até 31 de agosto. Na prática, os primeiros sinais de frio intenso no Sul geralmente aparecem já em maio.
O El Niño de 2026 será mais forte que o de 2023?
É possível. As projeções da NOAA indicam que o El Niño pode se intensificar rapidamente no segundo semestre de 2026, com chance de se tornar um Super El Niño — como os de 1982, 1997 e 2015 — caso as temperaturas do Pacífico ultrapassem 2°C acima da média. Se isso acontecer, os impactos no clima global serão ainda mais intensos do que em 2023.
Vai nevar no Brasil em 2026?
Sim, a neve ainda é possível — especialmente no Planalto Sul de Santa Catarina (São Joaquim, Urupema, Bom Jardim da Serra) e nas áreas de altitude do Rio Grande do Sul (Cambará do Sul, Bom Jesus). Com o El Niño, a probabilidade é menor, mas julho e agosto continuam sendo os meses com maior chance. A neve em ano de El Niño tende a ser mais úmida e menos duradoura.
O calor na Amazônia vai aumentar com o El Niño?
Sim. O El Niño tende a reduzir as chuvas na Amazônia durante o inverno, o que aumenta as temperaturas máximas e o risco de queimadas. Manaus, que já tem temperaturas acima de 30°C o ano todo, pode registrar picos ainda mais altos. A umidade relativa do ar também cai, tornando o calor mais suportável — mas aumentando o risco de incêndios florestais.
Fontes consultadas
INMET (Instituto Nacional de Meteorologia), NOAA CPC (Climate Prediction Center), EPAGRI/CIRAM (Centro de Informações de Recursos Ambientais e de Hidrometeorologia de Santa Catarina), MetSul Meteorologia, CNN Brasil.
